terça-feira, 28 de abril de 2009

Para Viver um Grande Amor



Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.


Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", de Vinícius de Moraes, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

domingo, 26 de abril de 2009

Brinde impreciso


Era um jovem em um bar. Sozinho. Só ele e seu copo. Olhava para o fundo do copo como se buscasse respostas . Estava tão mergulhado em reflexões que talvez seja pura sorte, o fato de ainda parecer estar seco.

Um brinde aos meus devaneios
Um brinde aos meus passos;
Um brinde às regras que me submeto;
Um brinde ao buraco que me engole.

Um brinde a quem me controla;
Que me faz não precisar pensar.
Um brinde aos fios da marionete;
Que jamais se enrosquem...

Um valioso brinde tilintado;
Aos planos que seguirei
Ao meu destino esculpido;
Por um cinzel qualquer...

Brindem por mim que os admiro;
Decisam meu destino por mim;
Avisem-me os passos que darei
Rabiscado em papel de pão.

Era um jovem em uma vida. Acorrentado. Ele e seus deveres. Olhava para o fim do mundo como se buscasse ele próprio. Estava tão mergulhado em depressões que talvez seja por pura coicidência, o fato de ainda parecer estar vivo.

domingo, 5 de abril de 2009

garota não-frágil.


Subitamente chega a tempestade que parece não ter mais fim.
Sufocada pelo desespero, pela tristeza e pela impotência ela chora e grita sem saber quais palavras dizer.
As únicas conclusões que conseguia chegar eram quão covardes e quão injustas são as curvas de nosso caminho.
Outra vez sua felicidade foi interrompida, e lhe foi imposta uma escolha dramática e desesperadora.
Ela só queria viver seu amor tão puro, o único amor que se comparava à plenitude... Aquele em que ela realmente acredita ser eterno.
É terrível perceber que o incomum incomoda - e muito - as pessoas, assim como a felicidade de outrem.
A imutabilidade dos pensamentos dos outros, daqueles que julgam, é difícil de ser superada.
Se sentiu fracassada com a incompreensão... A verdade era que ela já não tinha mais o controle de sua vida, não tinha mais vontade, não tinha mais inspiração.
E assim ficou por algum tempo, muitos dias com pena de si mesma, conflitando com todas suas angustias e com os julgamentos alheios, dos falsos colegas.

Coragem, menina!

Era isso que ela precisava. De muita coragem.
Ela não quis pensar na idéia de mulher frágil...
Decidiu que se necessário fosse, ela atravessaria o inferno pelo amor.
E, de fato, atravessou.
Fugiu de toda a loucura trazida pela tempestade, pensou, pensou e pensou.
Abriu o jogo, falou a verdade e foi à luta.
Apanhou muito, mas continuou a amar...

E hoje ela só tem uma certeza:
Se somente o arrependimento matasse, ela viveria para sempre!

(e muito feliz!)

Minha primeira postagem aqui, queridos amigos.
Saudade de vocês!
Beijo grande para todos.

terça-feira, 3 de março de 2009

O Cântico da Terra



Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Por Cora Coralina.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Chegou o dia!

Um sonho que grita, que sobe a parede...
Que me consome, que me domina...
Que vem de terras longe, terra verde
Um sonho que arde, que traz esperança,
Que me cria coragem de seguir minha sina
Um sonho distante, que enfim, chega, alcança.

Quem dera que pudesse ver, meus ancestrais,
Este momento de pura magia, de pura emoção.
Quantas almas clamaram por essa romaria?
Quanto sangue foi derramado, por essa bendita paz?
Porque há sombras existentes, mas a luz não está em vão.
Ela indica que onde negros tombaram, eles vão se levantar.
Um dia....

Anime-se povos do mundo!
O dia chegou!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A cara de cada autor - Parte II

Finalmente consegui postar no dia que foi designado a mim!!

Estava olhando o que disse nossa amiga Mare na postagem anterior, e fiquei comovida, resolvendo fazer uma continuação.

Querida Mare, com certeza fazemos parte da mesma fôrma, mas sua forma nós damos com as nossas diferenças e semelhanças, formando um Pentáculo da Vida, um Universo cheio de galáxias ricas e exuberantes, cheias de tudo aquilo que construímos de bom e de ruim - Mas até que olhando genericamente por fora, tá ficando algo bem bonito, não?

A vida é maravilhosa, meus amigos! E com esse ano que se inicia, desejo muitas e muitas alegrias - que possam ser compartilhadas! - e desejo-lhes as tristezas que os tornem mais fortes, mais vivos e mais experientes.
Aqui temos a cara de cada autor, mas juntos formamos um rostinho adorável!!

domingo, 4 de janeiro de 2009

A cara de cada autor.

Pela primeira vez postando aqui, como sou relápsa!

E vi os textos, li um pouco de cada e identifiquei cada autor. Não errei um.
Foi aí que concluí. Cada texto tem a cara de quem o escreve. E é fácil perceber isso.
Não somos apenas cinco lados, somos cinco pessoas diferentes, com vidas diferentes, com sonhos e desejos diferentes. Com nomes e idades diferentes. Entretanto, todos aqui temos a mesma fôrma.
E todos os nossos textos possuem essa mesma essência, essa mesma fôrminha que o botou no forno.
Com tantas caras diferentes, conseguimos encontrar e formar cinco fôrmas identicas com textos tão iguais que conseguem se tornar diferentes. Com um pedaço de cada um de nós.